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domingo, 5 de abril de 2020

Quinta Dimensão Vintage

Nos anos 70 a decoração das casas e as capas de discos andavam tu cá, tu lá.
Depois dos anos cinzentos de ditadura, parecia que a ordem era expandir e extravasar exuberantemente, para só usar três das 722 palavras começadas por "ex" que se aplicariam a este caso.
E era, de facto, extraordinário, sem ser bonito e muito menos coerente.
Uma quinta dimensão vintage por onde todos aqueles com mais de 40 anos passaram.

Nesta foto, do final dos anos 70, temos o Pequeno Johnny placidamente sentado, enquanto o Feng Shui, antes de se falar em Feng Shui, se debatia num vórtice canibal em que superfícies lisas, círculos e quadradinhos lutavam pela vida.
A coisa sobreviveu poucos anos, também porque naquela época as novas modas apareciam como cogumelos, e logo o mais oposto possível às suas antecessoras.
Foi assim que sobrevivi entre paredes pintadas com cores espatafúrdias, papéis de parede com padrões escanifobéticos, depois corticite porque era mais quente, a seguir azulejos porque era mais fresco; e sob os meus pés, o piso original da casa, depois alcatifa, a seguir tacos e ainda mosaicos.

Musa em Cena

Não me lembro muito bem desta divisão enquanto sala, porque ali foi quase sempre o meu quarto e, depois, o nosso quarto (meu e do meu irmão), mas lembro-me daquela mesa de mármore, que mais cedo ou mais tarde acabou com uma ponta lascada, daquele cinzeiro azul, que até fica bem naquela mesa e... lembro-me de mim, com o melhor corte de cabelo que tive, muito melhor do que agora, em que cabelo também é passado.

Não me lembro daqueles calções e camisa de ganga, todo em azul, numa afirmação de estética contra-corrente, em que, sem querer, fazia pandã com o isqueiro.
Ainda hoje o azul é uma das cores que mais gosto.
Muito mais que rosa, laranja e castanho todos misturados.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Princesas de Belém

Em dias de verde desbotado nada como recordar outros dias em tons de azul.
Como o do clube que joga ali ao lado, num dos mais belos estádios do país.
Hoje, na rubrica "O Pequeno Johnny", deste vosso blog, recorda-se Belém e as suas princesas.

Na imagem acima viajamos até aos anos 70, numa inesquecível ida a Belém, como são todos os passeios numa das mais belas zonas de Lisboa.
É claro que se fosse hoje convinha levar consigo um repelente de turistas.

Não sei se neste passeio catita de há quase 40 anos, estivemos na fila para os pastéis de nata, que nessa altura devia ser bem mais pequenina, ou se visitámos o Palácio de Belém, nessa altura ocupado por Ramalho Eanes.

O que me resta fazer, em relação à memória perdida, é comentar a foto.

Antes do mais, escreva-se que não sei quem é, nem por hoje andará aquela menina bonita que se inclina sobre o repuxo de água, como se fosse uma ninfa da fonte dos amores camonianos.
Também não sei por onde agora, e tenho pena.

O puto de boné que parece estar a chorar? 
Desconheço quem fosse.
Mas o pequenino por trás do bebedouro poderia ser o meu irmão, mas pela diferença de idades, duvido, porque o da bolinha, sou eu.

Roupa e acessórios vintage

Lembro-me muito bem daquela t-shirt meio Jogos Olímpicos, meio Guilherme Tell, lembro-me da bolinha azul saltitante e lembro-me ainda melhor daquele relógio.
Porque foi o meu primeiro relógio.

Já sabia ver as horas há algum tempo, e nada melhor do que ter ponteiros por cima de uma figura do Marco com o seu macaquinho às costas!

Recordo-me, por último, de achar aquela menina bonita, e de esperar o tempo que fosse até ela acabar de sorver, delicadamente, aquela refrescante água num dia quente.

Reparem como ensaio, com os meus lábios já então carnudos e sensuais, os mesmos trejeitos com que a menina bebe a água: é quase a origem da chamada 'duck face' das 'selfies' de hoje.

Já voltei várias vezes a Belém neste milénio.
Pelos menos duas delas com direito a tropelias de esquilos para gáudio das Princesas de hoje. 
As que contam.
As que não se esquecerão jamais, mesmo que não hajam fotografias para matar a sede.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Quando Era Novo Num Pinhal do Pinhal Novo

E regressamos de novo ao passado para um belo piquenique no pinhal.
Daqueles que têm frango ou sardinhas a assar, garrafões de vinhaça, futebolada e, no caso, pinhões de nostalgia, caídos aqui e ali, como lágrimas negras.
Chuif, chuif...

O tempo nesta sexta-feira 13 de Maio não está para milagres.
Ainda chove de vez em quando e venta.
Nas ventas.
Por isso dói-me a garganta há dois dias e peço desde já desculpa se o humor andar ausente.

Mas nesta manhã (ou tarde) de Primavera (ou Verão) de 1976 (ou 77, ou 78), fazia sol, como se pode ver pela luz que ilumina a caruma deste pinhal, no Pinhal Novo.

E éramos novos.
Eu e o Zé Cordas, a criancinha à esquerda.
Eu sou a criancinha à direita, que não às direitas, porque sou assumidamente fã da geringonça.

Por falar nisso, a geringonça de borracha que está ao meio é uma bola de gratas recordações.
Tantos e tantos derbies entre primos foram jogados.
Eram já Sportings x Benficas (mais tarde Itálias x Bélgicas e um dia explico porquê) com arte leonina e sorte lampiânica.
Tantos e tantos jogos perdidos por um, da forma mais absurda possível, como que se logo ali ficasse decretado por uma bola de borracha vermelha e branca (e não por uma de cristal), quem iria ter sempre mais sorte e quem teria sempre mais azar pela vida fora.

Obviamente que esta teoria simplista e superticiosa não explica tudo, mas aposto 100 euros e um seis pinhões como, neste preciso momento, não lhe dói a garganta como a minha me dói!! 
Humpf!

Aranhas Assassinas

Não tenho a certeza se foi desta vez, neste pinhal, que tive o mais horrendo encontro imediato com... um insecto.
Mas não um insecto qualquer, era daqueles que meninas como eu têm medo: aranhas.

No caso, uma aranha quase do tamanho daquela bola de futebol.

Jogava-se à apanhada.
Velocidade furiosa.
Parecia que, em vez de ser eu a correr que nem um maluco, eram pinheiros voadores que rasavam a minha cabeça.
Tropeços.
Mais velocidade.
E de repente, uma travagem brusca.

A centímetros da minha cara polvilhada de sardas, uma gigantesca teia de aranha, tecida com labor entre dois pinheiros, e, no centro da teia, a maior aranha e também a mais repugnante que vi até hoje.
E olhem que eu já desci o Amazonas com tarântulas que vinham comer à minha mão como cachorros.
Ou então não.

Mas ficaram com a ideia do tamanho do bicho.
Tenham medo, muito medo!

quinta-feira, 17 de março de 2016

A Pilinha de Deus

Olá uma vez mais a todos os leitores e hoje, em especial, um olá mais caloroso a todas as leitoras, tarados, pedófilos e afins.
Estes últimos grupos, em especial os sacanas dos "afins", podem ir saindo, se faz favor, porque o menino da foto cresceu e já não tem cinco anos, mas quase cinquenta.
(chuif, chuif...)

Nestes idos de Março de 2016, tem sido hábito cirandar por ali, junto à capela, no Parque José Maria dos Santos, ainda e sempre no Pinhal Novo, mas não ouso arejar o pirilampo, para descanso dos corações das beatas mais entradotas.
E para desconsolo de todas as outras... cegonhas... que sobrevoam pelo menos duas vezes por dia aquela área, e poderiam se candidatar a levar para casa tão inesquecível pitéu.

Mas em 1975, 1976, tinha todo o à vontade para tirar a pilinha para fora e, ao mesmo tempo, posar para o fotógrafo e aliviar a bexiga.
Um dom natural que não foi potenciado com a expectável carreira fulgurante na pornografia ou na TVI.

Tamanha irreverência, junto à capela, também não me concedeu a dádiva divina de ser um novo Casanova, um Rodolfo Valentino, um D. Juan ou, vá lá, pelo menos um Pinto da Costa.

Mas ficaram uma ou duas lições que decorei desde essa tenra idade:

- Se não estiveres em casa e a vontade vier, mictarás sempre com atenção às tuas costas, nem que seja encostado a um poste, porque o mundo está a ficar cada vez mais estranho...

- Uma vez mais, se andares pela rua e estiveres à rasquinha, urinarás sempre com prazer e deleite, porque um xixi ao ar livre é dos melhores prazeres gratuitos desta vida.
(mas não o faças junto a uma capela, se já não tiveres cinco anos)

E pronto, foi mais uma estória de quando era "O Pequeno Johnny", de quando era miúdo.
Uma estória de miudezas, portanto.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Praça da Independência, Anos 70

Esclarecimento prévio:
Não, nunca tive raquitismo e também não, jamais participei em corridas de póneis.

A bizarra memória perpetuada na foto acima diz respeito à Praça da Independência, do Pinhal Novo dos anos 70. 
Talvez 1976, 1977.

Foi sempre um espaço nobre do Pinhal Novo, mesmo nesta versão baldia, antes das fileiras de plátanos que não tiveram tempo de crescer e da actual configuração versão Século XXI.
E foi sempre um espaço nobre porque ficava perto da estação de comboios, peça central e berço da história pinhalnovense, e porque ali se realizou, anos a fio, o mercado mensal.

Na foto vêem-se apenas cinco edifícios - hoje só há espaço para mais um - e o meu é o do meio.
Apareçam quando quiserem.

No segundo, a contar da esquerda, e no rés do chão, ficava a mercearia do Sr. Alberto - também conhecido como "Caracol" - esmerado estabelecimento para onde eu era enviado aos chamados "mandados", em nome da minha querida e saudosa avó Catarina.
Hoje funciona ali uma óptica.
O que é irónico, porque deixei de ver ali um pedaço do meu passado.
Enfim, é uma maneira de ver as coisas.

O Tempo Passa a Correr

Esta verdadeira praça da alegria tem sido o principal décor do filme da minha vida.
Aqui fica uma vertiginosa viagem no tempo:

Golos marcados em balizas pequenas, pontapés em caixas vazias de sapatos nas segundas pós-mercado, corridas a jacto para apanhar o comboio, reforma agrária junto à estação, o sítio onde seguia para a preparatória, mais mercados no segundo domingo do mês, corredores de roupas, queijos e enchidos, sapatos - muitos! -, flores e muito mais, procura de revistas Disney, mais corridas para apanhar o comboio rumo à universidade, a Feira de Maio com carrosséis, os circos, o Citroën estacionado junto a uma poça de água, o bizarro edifício do Mercado Municipal, o novo edifício do Mercado Municipal, a Biblioteca, os passeios com o Mickey, as Festas Populares do Pinhal Novo, a mão da Princesa na minha mão, a ginjinha em copo de chocolate, o fogo de artifício e o fim de festa.

Fim de festa?
Não, de todo.

A Praça continua de pé e eu continuarei a passar por ali até quando Deus quiser.
Desde que seja eu a escolher o que vou vestir quando sair de casa.


terça-feira, 10 de novembro de 2015

Quando eu era Princesinha

As memórias que recupero hoje foram tabu até há bem pouco tempo.
Como quase todos os homens deste mundo tive a minha fase travesti.

Aconteceu uma única vez por volta dos meus três aninhos, isto se se considerar irrelevante dois anos na adolescência em que ia para a escola com a lingerie da minha mãe.

Quanto ao momento retratado acima, aconteceu por volta de 1973, 1974.
Vestido com uma espécie de... unn... vestidinho curto, uns sapatinhos ortopédicos que mais parecem umas sabrinas, meias branquinhas puxadas bem para cima, como se fossem collants e com um cabelinho comprido e sedoso, eis o pequeno Johnny transformado em princesinha da classe média!

Esta linda menina de pernoca bem aberta na varanda do seu 3º direito, e que por pouco não seguia o exemplo do filho do Nené, contentava-se a brincar com... molas de roupa!!

E diz a lenda que permanecia assim, entretido com tão pouco, horas a fio, podendo até os meus pais ausentarem-se para um fim de semana em Benidorm que, quando viessem, lá estaria eu na mesmíssima posição, embora sub-nutrido, e possivelmente mijado e cagado pelas perninhas abaixo...

Há que dizer aos nojentos pedófilos que têm estado a ler isto de braguilha desabotoada, que o menino/princesinha da foto cresceu, é um heterosexual de 44 anos e só frequenta o Parque Eduardo
VII por alturas da Feira do Livro e mesmo assim nem sempre.
Mas por hoje chega de falar de gajas boas, isto é, de mim.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O Pelé do Bairro

O mais perto que estive de ser um Cristiano Ronaldo foi quando participei nos treinos de captação para Juvenis do Pinhalnovense.
Não fiquei.
Primeiro, porque era já o segundo ano de juvenis, eles tinham uma base, e eu era basicamente uma nódoa nos treinos nocturnos porque já não via um boi.

O mais longe que estive de ser um Pelé, ou um Messi, foi na Primária e no Ciclo Preparatório, quando era o último a ser escolhido, a menos que fosse o dono da bola.
Nesses casos era o penúltimo.

Pelo meio, houve muitas e boas histórias.
As primeiras só para a fotografia, como na foto acima, de 1975 ou 1976, tirada no que era o Largo José Maria dos Santos, o actual Parque do Pinhal Novo.

Jogar à bola foi sempre a minha brincadeira preferida.
Depois da escola e até à hora de jantar, jogava-se com balizas pequenas, feitas com as mochilas ou com pedras, ou até com dois gordos inaptos para a coisa.

Jogava nas ruas, nos rinques, debaixo dos eucaliptos junto à linha férrea, na escola,na praia, em terraços e até dentro de casa naquilo que deveriam ser intermináveis tardes de pesadelo para os vizinhos do 2ºdto, o andar de baixo.

E tanto joguei que hoje posso dizer que cheguei a ser o Pelé do bairro.
Aquele que marcava golos atrás de golos, dono de uma velocidade que "deixava a bola para trás", como dizia o meu pai, ou como uma "gazela, como me chamavam os outros.

Jogos que valeram campeonatos

Mas os mais renhidos jogos eram os mano-a-mano.
Como a expressão indica, jogava um para um com o meu... irmão, aqui em casa.
Ou contra o primo Carlitos também no mesmíssimo corredor de tantas batalhas e contra o primo Zé, num terraço numa rua de vivendas.

O auge desta carreira atrás dos holofotes da fama foi por volta de 1987.
O FC. Porto tinha o Futre e tinha o caneco de campeão europeu, e eu fintava os outros meninos como o homem que agora faz publicidade a comprimidos para a erecção e marcava golos de calcanhar como o o argelino Madjer, o homem que agora faz não sei o quê.

E houve também uma fase, alegre, bizarra, de quase inaudita exuberância, em que juntava às mais espantosas jogadas o grito louco "SUPER TÉO!!"

Mas... que raio...

Eu explico:
"Téo" era personagem de um dos meus actores-fétiche brasileiros, Marcos Frota, na saudosa novela "Vereda Tropical", ou pelo menos era uma das transformações do "Teozinho", porque acho que era como "Cazuza" que ele jogava futebol com o "Luca"/Mário Gomes.

Mas o que interessa era que cada vez que marcava um golo, lá para meio da década de 80, junto aos eucaliptos , lá soava o grito "Super Téo".
Convenhamos que é mais engraçado que a posse à matador de CR7.
E olhem que seria apropriado, porque o antigo matadouro era ali ao lado.

sábado, 11 de julho de 2015

Férias em Almograve

Começo por constatar que esta foto tem quase 40 anos.
O que parece mentira.

E que já tive aquele tamanho, houve uma altura em que não tinha um único pelo no corpinho de Branco de Neve, e gostava a valer de praia.
O que parece mentira, mentira e mentira.

Almograve, litoral Alentejano, lá para 1977 ou 1978.
Ao lado do primo Zé Eduardo, ligeiramente mais tostado, exibia um barquinho de plástico verde que ainda está fundeado nesta memória perene.

Naquelas mini-piscinas naturais de água tépida, entre rochas aveludadas de verdes lismos, faziam-se as mais competitivas corridas náuticas de que há memória.
Ao pé daquilo, a America's Cup é para meninos.

Eu e o Zé brincámos muito ao longo de quase 20 anos, sempre muito competitivos, fosse nas raquetes, a jogar à bola, ou a beber leite com chocolate.
E ali discutíamos quem tinha os barquinhos mais giros, os que boiavam melhor e os que deslizavam mais rápido.

Sei que fomos para lá em matilha familiar, e alugamos, salvo erro, o primeiro andar de um prédio, não muito perto da praia, mas fazia-se bem a pé.

Acho que foi apenas por um fim de semana, mas aqui está uma prova fotográfica de que eu já estive em Almograve, no bonito Litoral Alentejano, muitos anos antes da horda de festivaleiros, ruidosos e peçonhentos, aterrar na Zambujeira do Mar.

Por outro lado, não havia, no Almograve dos anos 70, gajinhas bêbedas a levantar t-shirts para exibir as mamas...

Mas acho que, com sete anos, as brincadeiras com os barquinhos de plástico nas piscinas naturais, de água quentinha, era o que mais interessava na altura.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Uma Cena à Senna

Já lá vai uma mão cheia de anos desde que não tenho carro.
Sinto falta do Saxo, da mobilidade, da independência, dos pioneses colocados no mapa, sempre que chegávamos, juntos, mais longe.
Mas não foi o meu primeiro carro.

A minha primeira viatura era de cor vermelha, tinha quatro rodas, claro está, e era extremamente económica.
Não gastava um tostão em gasolina, gasóleo, água ou limonada, porque movia-se com a ajuda da força das minhas perninhas roliças.
Resumindo, era a pedais.

Na foto, tirada quando tinha uns quatro, cinco anos, ou seja, lá para 1975, 1976, estou num dos saudosos baldios perto da casa dos meus pais, antes do boom da construção e do progresso ter eliminado esses espaços de brincadeira que tanto eram campos de futebol, como pistas de ciclismo ou de carrinhos.

Como era ( e já agora, continuo a ser, fujam!) um doidivanas ao volante e, fruto de uma pedalada frenética atingia velocidades furiosas, os meus pais não tinham outro remédio senão garantir a segurança de tão intrépido Senna.
Ainda antes do tempo do Senna.

Por isso aquele blusão capaz de resistir a uma explosão de um carro que não usava combustíveis, e aquele capacete quase do tempo da Primeira Grande Guerra, que me protegia para um eventual, absurdo e pouco provável capotamento.
Ou então era para andar à vontade debaixo das varandas dos prédios onde morava gente mais dada a discussões conjugais e subsequente arremesso de objectos.

Lembro-me que este... ann... diria que... mini pop... que é o que parece estar ali escrito, tinha rodas de borracha que, em terrenos mais irregulares, saíam facilmente do bordo de ferro, mas também eram facilmente recolocáveis.

Estes eram os tempos que sucederam os dos carrinhos de rolamentos, com menos rebeldia, menos aventura, mas também menos joelhos esfolados.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Arrábida, Bolinhas e Gigantones


Nfinal dos anos 70, princípio dos 80, toda a gente no Pinhal Novo conhecia o Mini branco com riscas laterais pretas.

Chamava-se Bolinhas, pelo formato pequenino e arredondado, e porque a matrícula ajeitava-se à denominação.
Acrescentando a isto três 7´s seguidos, mais parecia um carro de rally que outra coisa.

O Bolinhas levou-me ao norte, ao Algarve, às beiras, ao Alentejo e, entre tantas voltas, deu umas voltas na Arrábida.

Na foto, estou sentado, com os meus pais, no capot do Bolinhas, com aquelas roupas sempre indescritíveis, num daqueles verões quentes dos anos 70, referências políticas à parte.

O mais intrigante no retrato é magicar quem o tirou, pois se estamos ali os três, não sobraria mais ninguém.

Não tendo aqui os meus pais, que de momento foram a banhos noutras paragens, resta-me deixar correr o meu débil poder de dedução:
Ora, temos a sombra do fotógrafo, ou da fotógrafa, que claramente usa calças à boca de sino... genial dedução!
E parece também que é alguém muito alto(a), não me venham falar de sombras estendidas.

Concluo que a foto foi tirada por um gigantone.

Às vezes encontrava-se um ou outro na mata da Arrábida, e se ao princípio metiam medo, pelos gritos lancinantes e pela perseguição aos carros que por ali passavam, depois que lhes dávamos amendoins, ficavam dóceis e prestáveis.

Depois passaram a reunir-se no Pinhal Novo, no FIG - Festival Internacional de Gigantes, tal como vai acontecer de novo este ano, no início de Julho.
Não me posso esquecer de levar amendoins.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O Cavalo de Ferro

Nasci, cresci, tenho vivido e provavelmente vou morrer numa terra de ferroviários.
Podia ser pior.

Também o Pinhal Novo nasceu e tem crescido à volta daquelas linhas de ferro que dividem a vila ao meio.
Eu vivo no lado norte, onde estão todos os espaços nobres, como os jardins, os bancos, a igreja, o Costa Bar, a Biblioteca... noblesse oblige.
No lado sul ficam os cemitérios.
Acho que deu para perceber o meu ponto de vista.

Como todos os petizes já fiz trinta por uma linha, mas esta foto mostra que também era uma criança bem comportada.
Ainda que com traços andróginos e com calções de trapezista do Circo Chen.

Esta foto (e o comboio que nela aparece) já antes foi publicada no blog "Máquina do Tempo" e motivou até pedidos de informação de entusiastas por aquele tipo de máquinas tchuca tchuca.
Chegaram a identificar a coisa com o nome técnico correcto, mas agora não me apetece ir à procura no arquivo de e-mail, por isso chamemos-lhe "comboio".

As melhores histórias deste vosso amigo, relacionadas com comboios, aconteceram na adolescência.
Não, não é isso que estão a pensar.

A nova estação e as passagens subterrâneas só apareceram neste século.
Antes disso passava-se por cima dos comboios que ficavam por ali.
Mesmo carregados com compras da Cooperativa.

E se não houvesse comboios, havia sempre o aliciante de ficar com um pé entalado quando as agulhas mudavam as linhas.
Uma vez fiquei com ele entalado (o pé!!) e ao longe ouvia-se o comboio a aproximar-se.
Deixei lá o ténis e afastei-me.
Depois voltei para ir buscar o que restava dele.

Brincar aos Comboios nos Tempos da Faculdade

Mas os episódios mais rocambolescos com comboios aconteceram nos tempos da faculdade.
Não, continua a não ser isso que estão a pensar.

Como sempre fui mau de horários, era usual ir a correr para o comboio e só apanhá-lo à justa ou mesmo com ele já em andamento.
Ajudava que houvesse degraus e uma espécie de varão, uma pega metálica, que ajudava a subir.

Uma vez o comboio já ganhava velocidade, mas eu tinha decidido que ia na mesma apanhá-lo.
Voei para os degraus e para o varão e, com a deslocação, fui bater com as costas na parede do comboio - sempre agarrado à pasta - e tal qual um desenho animado, voltei aos degraus, tendo depois entrado como se nada tivesse acontecido, mas com uma dor no braço e nas costas como se fosse o Corcunda de Notre Dame após um AVC.

"Melhor", entre aspas, fez o Nelson.
Numa das vezes que apanhou o comboio já em andamento, reparou que a porta estava trancada.
Ainda bateu, mas ninguém o ouviu.
Resultado: Foi ali pendurado até à estação seguinte.
Cinco minutos ao frio.
Seis e tal da manhã em pleno Inverno.

Não sei o que seria do Pinhal Novo sem comboios.
Há alguns anos que voltei a recorrer a este meio de transporte para chegar ao trabalho, desde que perdi o meu carro num acidente pateta.
Mas como aqui só se fala do "Pretérito Perfeito" isso agora não interessa nada.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Aventuras no Jardim Zoológico de Lisboa

Jamais houve um dia de visita ao Jardim Zoológico de Lisboa que não tenha sido um dia feliz.
Não que goste de ver animais enjaulados mas porque me sinto livre de cada vez que lá vou.

Graças a um dos grandes amigos dos tempos de universidade, regressei lá há quatro, cinco anos, gratuitamente.
E por isso estou em dívida e de que maneira.
Porque poder visitar tantos e tão belos animais, mais para mais na companhia da Princesa, não tem preço.

Mas viajemos no tempo até aos estranhos anos 70.

Não ficava barata uma ida com a família ao zoo e no nosso caso éramos quatro.
De qualquer forma sabíamos que valeria sempre a pena o esforço, até porque era (ainda é) um dia em cheio.

Não sei se íamos de carro ou se recorríamos a outro meio de transporte, mas o importante é que chegávamos lá; e lá chegados, uma das primeiras necessidades era saber se havia lugar no parque de merendas, que ficava lá em cima, para almoçar o farnel.
De facto, não havia uma zona de restauração tão abrangente como a de hoje, mas ninguém dizia que não a umas buchas com chouriço, uns sumos, umas peças de fruta, se bem que o prato principal eram os elefantes, as girafas, os leões ou os macacos.
Nunca comi esse género de bicheza, não façam confusão.

Se tivesse que fazer um top com os animais que mais desejávamos ver, as quatro espécies descritas ali em cima fariam parte, concerteza.

Habilidades Animais

As girafas porque eram mais altas que a minha vizinha do rés do chão e porque queria ver se aquelas manchas eram mesmo sinal de problemas de fígado...

Os leões porque eram majestosos, altivos e confiantes, características que, infelizmente, pouco ou nada usam quando vestem de verde e branco.
E também pelo respeito que impunham.
Corria sempre um outro rumor que uma criancinha tinha caído lá em baixo e...

Os macacos porque viviam numa Aldeia onde não faltava a padaria, os cafés e tudo o mais, e porque insistiam em comportamentos que estavam mais do que interditos lá em casa:
Mandar restos de comida e de fezes às visitas e a masturbação em ritmo disco...

E os elefantes porque recebiam uma moedinha e em troca tocavam um sininho, ou então, quando ouviam determinado número de palmas, levantavam a tromba e imitavam os sons que ouvíamos na Assembleia da República.

Talvez acrescentasse os tigres, os ursos, os hipopótamos ou o reptilário.
Mas raramente visitávamos este último porque requeria nova aquisição de bilhetes e eu também não fazia grande questão porque saía de lá sempre acagaçado.

Nesse tempo, já o velho comboio serpenteava pelas colinas do zoo, sempre apinhado de gente doida e feliz.
Para atingir esse estado nirvânico, lá se largavam mais uns escudos.
E o mesmo se queríamos levar aquelas fotografias que procuravam a todo o custo impingir à entrada.

Hoje, compreendendo que se possa considerar um bilhete caro, nunca será demais ressalvar que a entrada inclui o tal passeio de comboio, o reptilário, a alimentação de aves, e salvo erro também o teleférico e as exibições das focas e golfinhos.
E se é assim, tenho mesmo que lá voltar em breve, quiçá recorrendo desta vez à promoção de pontos da BP, passe a publicidade.

Nunca se deve voltar ao lugar onde fomos feliz?
Treta.


sexta-feira, 13 de março de 2015

Joãozinho e a Cabra Mágica

Como 2015 é o Ano da Cabra, resolvi publicar esta foto como parte da rubrica "O Pequeno Johnny".
Para que saibam quem é quem, a cabra está a subir o monte.

Não sei precisar em que sítio do Pinhal Novo foi tirada esta foto, nem quantas birras fiz para vestir aquelas jardineiras, mas vamos por partes.

Não me lembro de existir um Badoka Park no Pinhal Novo, portanto, esta foto, não foi tirada num parque temático nem numa quintinha pedagógica, coisinha inventada muitos anos depois para mostrar às criancinhas dos computadores que são as galinhas que metem os ovos e que os coelhos não são todos de chocolate.

O que leva de novo à temática dos terrenos baldios, o que, a ser o caso, inclui um monte com uma cabra de guarda.
Ou será um bode?
(post it mental: visitar uma quintinha pedagógica)

Já agora, a meio do texto, convém referir que o facto da cabra já ter desaparecido é mesmo a única coisa mágica que se pode atribuir ao caprino em causa, mas sempre deu um título todo catita, quase de livro infantil.
Não é um porquinho com flores no lombo, mas pronto.

Quanto à roupinha que me vestiam, tenho andado seriamente a pensar se constitui motivo para levar os meus pais a tribunal por danos irreparáveis quanto ao prestígio, decoro e roupa susceptível de criar problemas de infertilidade.
Um amigo advogado diz-me que estes possíveis crimes já prescreveram.
Bolas.

Uma ressalva:
O pullover de gola alta amarelo é bem giro.
De resto, o amarelo foi a minha cor preferida durante a maior parte da minha infância.
Eu não disse que era perfeito, o Pretérito é que foi.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Os Pequenos Vadios e os Últimos Baldios

Na primeira metade dos anos 70, o Pinhal Novo ainda tinha muitos espaços assim: terrenos baldios que depressa seriam tomados por prédios de habitação, comércio e serviços, numa cavalgada desenfreada rumo a um futuro de cidade ou, por enquanto, de vila com milhares de pessoas que transpiram, mal respiram e expiram sonhos como aquela roupa que deixa de servir por nos alambazarmos ao jantar.

Mas antes de crescermos eu e o Pinhal Novo tivemos uma infância feliz.
Feita de jogos de apanhada, escondidas, com bola, sem bola, nas obras, nas silvas, nos telhados, nos pátios, enfim, na rua.

A rua era onde o pequeno Johnny deixava a sua eterna zona de conforto e desafiava a timidez natural com a vontade de viver aventuras como as que via na televisão ou nos livros de banda desenhada.
Aventuras controladas parentalmente, pelo menos enquanto não era maior que aquele anão feio da Ilha da Fantasia.

Na foto, devo ter três, quatro anos e visto uma roupinha de circo, como se fosse o filho do Homem Bala, que os anos 70, já se sabe, não deixaram saudades em relação a figurinos kitsch devotos do Deus Exagero, divindade que poderia ser representada por um tipo de bigode, patilhas, farta cabeleira e calças à boca de sino.

Sónia e Miguel

Aquele exacto ponto que piso com os pequenos sapatinhos de fivela (ou pouco mais à frente) é hoje o local onde fica a casa da Sónia e do Inácio, que também já não é bem a casa deles, obrigados como outros a deixarem as suas zonas de conforto para viverem aventuras, mas daquelas que pouco vemos na televisão e nunca vimos na banda desenhada.
Ali fica hoje, também, o Millenium BCP, um dos bancos que já deu caldeirada em Portugal, o que é apropriado porque antes esteve ali um restaurante.

Ao fundo, para além de um senhor que leva o filho consigo, na bicicleta, vê-se o prédio onde, no 2º andar, fica a casa dos pais do Miguel, que foi também do Miguel e dos amigos, que ele não fechava a porta a ninguém.

Conta a lenda que era um jovem com dotes de Homem Aranha e que aproveitava aquela espécie de empena aos buracos ao lado da varanda, para saltar dali para o telhado da casa vizinha e depois descer por aqueles travessões na janela da casa do lado.
Ou então subia assim, quando se esquecia da chave.
Ou então ainda, agia assim... porque sim.

Seja como for, nesta altura da foto nem conhecia o Miguel, a Sónia, o Inácio ou mesmo o Nelson.
Uns ainda nem sequer tinham nascido, outros tinham acabado de nascer tal como o Pinhal Novo que, em matéria de construção ainda só gatinhava com sapatinhos de fivela.